Um piscar de olhos é a fração necessária para a contagem do pulso.
Pois em segundos se torna mais fria.
A exatidão do cronômetro não tem essência,
É desalmada e mórbida como o relógio.
O tempo para mim tem muito mais valor quando contado em atos e não em minutos.
A horas são mais lentas quando contadas em lembranças.
Os dias são mais felizes quando medidos em prazeres.
E quanto mais prazeres diários menos o tempo se torna um vilão.
Passa a ter menos importância.
Uma vida não se mede em anos, mas sim em experiências.
As distâncias deveriam ser medidas em paisagens ou em coisas belas.
Passaríamos a nos deslocar desfrutando das coisas boas do caminho, seríamos obrigados a prestar atenção em cada detalhe para não nos perdermos.
E assim as viagens se tornariam menos cansativas.
Uma ida ao centro da cidade não seria um transtorno se prestássemos atenção nas crianças felizes, nas pessoas conversando sorridentes, nas árvores que balançam ao sabor da brisa e nos pássaros que enfeitam os fios de luz.
Ainda não é difícil achar um beija-flor pelo caminho. Pelo menos aqui, na minha terra.
Os valores seriam objeto de estima se expressassem sentimentos puros, como amor, ternura e fraternidade. “Vale quanto prezo”, com perdão do trocadilho infame.
Minha ida do Viaduto de Santa Tereza até a avenida João Pinheiro dura apenas um saquinho de pipoca.
Um bom filme dura apenas meio pote de sorvete.
_ E então doutor, tem cura?


