Quando seu Erasmo entrava no banco todos já esboçavam um sorriso. Quem não o via logo de cara era avisado de sua presença pelos colegas de trabalho. E lá vinha seu Erasmo. Como sempre todo de branco. Paletó impecável, calça de linho e sandália de couro. Um bibico azul e o inseparável guarda-chuva completavam o visual.
Exigia que todos os funcionários do banco o cumprimentassem. Alguns correntistas já o conheciam pelo nome e também o reverenciavam.
Seu dia começava as 8:00 da manhã. Passava pelo café Palhares para seu desjejum e um dedo de prosa com Osvaldo. Dali ia para o banco. Saia sempre dizendo que ia cuidar dos negócios, apesar de todos saberem que era um aposentado sem posses.
Ao chegar no banco sempre a mesma rotina. Cumprimentava todos que estavam na ante sala do banco e parava em frente a porta rotativa olhando de cara feia para o guarda. Com um sorriso no rosto Rogério permitia sua entrada mesmo se soasse o alarme de metais. Já sabia que se tentasse separar seu Erasmo do guarda-chuva poderia se dar mal. Sem muita cerimônia ia direto para a fila e lá começava sua jornada.
Interrogava um a um. Para qual time torce? Onde nasceu? Quem é seu pai? E dependendo das respostas reagia de uma maneira. Para os atleticanos abraços e tapas nas costas. Para os torcedores do cruzeiro levantava o guarda-chuva ameaçando bater. E assim passava suas manhãs. Numa peregrinação bancária que lhe rendia boas histórias.
Mas às vezes aprontava das suas. Quando o Atlético vencia ele acordava inspirado. Retirava os atleticanos da fila e usava sua influência para agilizar o processo. Pegava as contas do indivíduo e ia ao caixa para idosos efetuar o serviço. Os caixas ficavam um pouco constrangidos, mas seu Erasmo sempre dava um jeito de contornar a situação. Mas quando o galo perdia não tinha jeito. Era só encontrar um atleticano na fila para culpá-lo pelo desempenho do time.
Antes da troca de turno fazia questão de se despedir dos funcionários. Seu discurso era tão sentimental que parecia que todos sentiriam sua falta. Na verdade até sentiam, mas não muita. Sabiam que estaria de volta no dia seguinte. Ao passar pela porta giratória, olhava com o canto do olho para Rogério e levantava o guarda-chuva cantando vitória. A rotina no banco voltava ao normal. Mas seu Erasmo já fazia parte da rotina do banco. Gostava tanto daquele lugar que sempre ao se despedir da gerente dizia:
_ Um dia vou abrir uma conta aqui. Só para te visitar todos os dias.


