As fronteiras do asfalto e do morro vivem se cruzando: no centro da cidade, dentro de casa, no trabalho, dentro do ônibus, no taxi, nas ruas. Em todo lugar vemos as fronteiras que separam as oportunidades e a falta delas, o estudo e a falta dele, a honestidade e falta dela. E mesmo assim ninguém se dá conta do conflito que essas fronteiras geram.
Arnaldo não tinha medo de trabalhar com meninos de rua. Para ele não havia como negar que eles existiam. “Não vai ser evitando uma região que se acaba com o problema que lá existe”, dizia ele. Arnaldo era um cara de bem com a vida, tinha se formado em educação física, mas, como a maioria de seus colegas de faculdade, buscava um emprego. Apesar da situação difícil se virava com alguns bicos e ainda ia para favela fazer trabalho voluntário. Para ele, aquilo sim é que era aprendizado. Cada dia uma nova aula de vida. Era na favela que recuperava o fôlego para continuar em busca de emprego. Era lá que recuperava sua auto estima, era lá que se sentia realmente útil. Não era de família rica, mas também nunca passou fome. Considerava-se um cara de sorte, conquistou quase tudo o que batalhou. Mas sempre faltava alguma coisa: o seu lugar ao sol. Por isso se empenhava ao máximo nos projetos sociais desenvolvidos por uma ONG na favela do manezinho. Lá aplicava seus conhecimentos, fazia um “estágio” não remunerado como costumava dizer e era também uma forma de consolidar o que aprendeu na faculdade.
João Kleberson vinha de uma família pobre, logo cedo perdeu o pai e a mãe se tornou alcoólatra. Não suportou o fardo de criar cinco filhos sozinha. Recriou seu mundo na garrafa de pinga, assim era mais feliz. Os meninos se criaram praticamente sós, nenhum chegou a completar o primeiro grau, uns saíram de casa outros morreram em tentativas fracassadas de ganhar algum dinheiro com o crime. João era o mais novo. Tinha o ódio estampado em seu olhar. Nunca conseguiu nada além de uns trocados no sinal. Sobrevivia de pequenos serviços remunerados quase sempre com comida. Era de paz, mas era vítima do preconceito. Andava sempre sujo, nunca teve roupas novas. Mesmo quando seu pai era vivo vestia os trapos usados por seus irmãos. Na favela fazia pequenos furtos vez por outra, mas sempre roubava comida.
A primeira vez que Arnaldo e João se encontraram, ficaram se olhando por um tempo. João viu um cara de fora que teve tudo que ele não teve. Que tinha roupas limpas, um tênis legal, que sabia ler e escrever, sem falar que as meninas da favela não tiravam os olhos dele. Já Arnaldo enxergou só rancor. Estava na cara o sofrimento que a vida reservou para aquele menino.
Os trabalhos com aquela comunidade iam bem, apresentavam resultados e tinham boa aceitação. As meninas já haviam formado um grupo de dança, os meninos que estavam no time começaram a apresentar boas notas e as tardes de treino preenchiam o ócio da maioria. João não foi aceito no time. Recusou freqüentar a escola. Mesmo com a insistência de Arnaldo e dos amigos ele permanecia irredutível. Mesmo não participando do time não perdia uma tarde de treino. Sempre era convidado a entrar mas para isso tinha a condição: voltar a estudar. Não tinha jeito. Preferia assistir Maria Rita dançando com as meninas a freqüentar as aulas pela manhã.
Com a oferta de uma bolsa auxílio pela ONG, Arnaldo resolveu se dedicar em tempo integral aos projetos na favela. Com isso imaginava ser contratado definitivamente. Passava o dia inteiro no morro. Almoçava no bar da Dona Ema. O mesmo em que João lavava pratos para descolar um rango. Os olhares de ambos se cruzavam algumas vezes durante o almoço. O de Arnaldo era de pena e impotência por não ter conseguido convencer o menino a entrar no time e voltar a estudar. O de João era de raiva, pois atribuía a Arnaldo a rejeição no time. Mais uma oportunidade que lhe escapava entre os dedos.
A gota d‘água foi ouvir de Maria Rita elogios um tanto lascivos ao físico de Arnaldo. Aquela noite João não conseguiu dormir. Somente chorava. Não suportou a perda de seu amor platônico. Sentia-se traído. Por uns dias não apareceu na quadra. Nem para ver os treinos e muito menos para ver o ensaio do grupo de dança.
O corpo de João foi encontrado cinco dias depois que encontraram o corpo de Arnaldo. Não aceitara a perda da única coisa que o mantinha vivo. Matou o seu ideal de sucesso, via Arnaldo como o causador de suas últimas desilusões. Mas depois de matar não suportou o peso da maldade. E sem amor, mesmo que platônico, não valia a pena viver. Das cinco balas que comprou usou apenas três. A primeira para treinar, uma para a decepção e a outra para o arrependimento.
O cruzamento das fronteiras gera mortes além de contrastes. A falta de oportunidades cria enganos além de desigualdades sociais. A honestidade pode ir além do suportável. O que não garante uma vida digna.


